TALENTOS E FUNÇÕES

 

Por Danilo Sili Borges

                Há os que creem que ao nascermos nada trazemos gravado no nosso cérebro além do necessário para o funcionamento da vida instintiva, automática e primitiva, e que daí por diante tudo seria adquirido por ensino e aprendizagem. Claro que nesse software mínimo, estaria uma parte que nos permitiria a interação com os demais seres da natureza. Uma ideia igualitária, “politicamente correta”, tão ao gosto da atualidade, mas que não se sustenta frente à prova da realidade.  

Surge daí, por exemplo, o esdrúxulo conceito da definição do gênero sexual como uma escolha consciente do indivíduo, pela sua vontade e não por uma determinística ação da natureza na disposição cromossômica e hormonal que se dá desde a concepção e ao longo da vida intrauterina. Tentativas de explicação da natureza a partir de ideologias políticas ou religiosas sempre dão errado.

Visão extrema, tão ao gosto das tradições de povos do oriente médio, de onde tenho minhas raízes, é o fatalismo do Maktub, de que tudo estava escrito, previsto. Até o fato do cair de uma folha de uma árvore estava impresso no Livro da Vida. Obviamente é filosofia paralisante e contrária ao crescimento de qualquer valor.

Outros nos ensinam seu mapa único das virtudes e nos dizem: “Sigam-no se quiserem, vocês são livres para escolher, mas lembrem-se da maçã, da cobra e da eva, se saírem do que está riscado, o gadanho das três pontas vai pegar cada um”. Um horror!

A verdade é que a combinação, provavelmente randômica, dos genes que nos compõem as células, e que a ciência vai desvendando os mistérios com rapidez e positivas consequências, como agora, com a criação das modernas vacinas que imunizam contra o SARS-CoV-2 pela tecnologia do RNA mensageiro, é o mesmo caminho que vai comprovando pela ciência que cada um de nós recebe conjunto de talentos próprios para serem usados na sobrevivência, desenvolvimento próprio e contribuição ao meio ambiente e social.

E o quanto antes percebermos quais são os nossos talentos, tanto mais cedo seremos úteis e estaremos adaptados ao meio em que nos desempenharemos harmoniosamente, no modo que se convencionou chamar “felicidade”.

Tentar forçar a barra para ir além das melhores capacitações naturais não costuma permitir voos de longa distância. Vamos a um hipotético exemplo extremo: imagino que por mais que Pelé tivesse se dedicado ao estudo da Física, dando a essa ciência toda a sua inteligência e comprovada capacidade, nunca teria chegado a um Nobel, como também intuo que Einstein mesmo que dedicasse centenas de milhares de horas de treino na sua juventude ao futebol, jamais levantaria a taça da Copa do Mundo. Questão de talentos.

Como sabemos se alguém está fazendo uso pleno de suas capacitações inatas nas tarefas que executa? Observe-o: Quem está operando dentro de seus atributos durante o trabalho, é feliz. Mostra proficiência, o rendimento e a qualidade do seu trabalho são apreciáveis. A curiosidade, as horas de estudo, a preparação física, por exemplo, no caso de atletas, não lhes representa sacrifícios, mesmo que os estafem, nunca perdem o bom-humor.

E quem está fora do diapasão, quais são os sintomas? Está sempre infeliz, é agressivo, o resultado do seu trabalho é ruim, repassa a culpa dos seus erros a outros. Sofre com o êxito alheio como se fosse um insucesso seu, teme a concorrência. É um desastre.

Sempre que tiver que chamar alguém para o seu time, faça como o Jorge Jesus: se é de um centroavante matador que precisa, não coloque na posição um zagueiro ou um ala. Talentos não se improvisam.

A pessoa certa, no lugar certo nunca perde as estribeiras. Churchill tocou uma guerra, vendo a Inglaterra ser bombardeada várias vezes ao dia e manteve a elegância e dele o povo não ouviu impropérios ou manifestações de primarismo.

João Nogueira de Rezende, deputado federal por Minas Gerais em oito mandatos, nosso saudoso companheiro no Rotary Club de Brasília Lago Sul, trazia-nos fatos da sua vivência nas lides políticas, com os quais nos brindava após o término das reuniões do clube. Recordo-me da sua admiração de como o presidente Juscelino era capaz de conduzir tantas e tão complexas tarefas do seu Plano de Metas, transmitindo otimismo e sentimentos positivos. Anote-se que Rezende, na política, sempre esteve em oposição a JK.

Lembro-me e vou reproduzir o que ouvi do experimentado político: “Eram sempre encontros agradáveis, mesmo sendo eu do bloco da oposição e estando Juscelino sob fogo cruzado dos competentes Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Temístocles Cavalcanti. Ele nunca deixou de receber individualmente nas manhãs das quintas-feiras no Catete parlamentares da situação e da oposição para resolver pendências. Essas reuniões se iniciavam sempre com um pedágio, o visitante deveria trazer um “causo” ou uma piada nova para lhe contar e rirem juntos, enquanto tomam o café que abriria a conversa”.

Êta, Brasil feliz!

Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Mar. 2021

danilosiliborges@gmail.com

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