ECOS DA GUERRA FRIA

                Quando, em 1989, Francis Fukuyama publicou seu artigo O fim da História? (The end of History?)  ninguém, nem provavelmente ele mesmo, acreditou no que dizia. A sentença forte era uma expressão de impacto para retratar o desenlace que se havia dado com o desmanche da União Soviética batida na guerra estratégica, econômica e ideológica, que travara, desde o final da 2ª Guerra, com os Estados Unidos.

A hipótese foi entendida como um apelo para chamar a atenção para o seu bem elaborado trabalho. Parar a História, dali em diante, seria eliminar da humanidade as guerras, fato pelo qual melhor se pode entender, escrever e até prever os caminhos do Homem neste planeta. A ideia de que o sistema da democracia liberal capitalista é o suprassumo da evolução sociocultural humana não cabia em cérebros com bom senso.

A prevalência dos vencedores, inferia-se, era tão evidente, que lhes seria possível diminuir seus próprios esforços bélicos e impor ao mundo algo no mesmo sentido.  Os recursos que sobrariam das despesas bélicas seriam aplicados no alargamento das bases do sistema capitalista, o mercado, pela incorporação de largos contingentes populacionais, então, fora das áreas de consumo, vivendo em condições miseráveis e formando o caldo de cultura para o crescimento do terrorismo político-religioso que se insinuava com força, mas até ali mantido pelos países derrotados na guerra estratégica.

Do ponto de vista negocial tudo estava arranjado com a Globalização, que é, na realidade, a bomba de sucção das riquezas do mundo inteiro aos vencedores, posta a funcionar por Reagan e Tatcher, os também, vitoriosos da Guerra Fria. A China ainda não se via nesse horizonte.

De hipótese e artigos, a livros e palestras, Fukuyama se notabilizou. Mas os vencedores não pensaram como ele e continuaram a guerra. Os vencedores sempre continuam! Na realidade, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) nestas décadas tem crescido com a agregação de novos países membros, inclusive com a inclusão de repúblicas componentes da antiga URSS.

Só, em suas estepes, a grande Rússia, agora capitalista, vai se reconstruindo, mas não se vê – ou não quer ser – aceita pela Europa ocidental, sua tradicional oponente. E a História continua se escrevendo cheia de lances de emoção.

Ver a Ucrânia escapar da sua influência, associando-se à OTAN não é aceitável para Putin, que ao se opor fortemente a isso também consolida posição política interna, segundo analistas internacionais. A movimentação de tropas com centenas de milhares de homens e armamentos sofisticados nas fronteiras com o país vizinho reforçam essa posição. Como sempre Estados Unidos e Inglaterra juntos, tocam mais fogo no barraco. Macron, com aquele seu jeitinho francês, foi a Moscou tentando solução diplomática, que deverá, ao fim e ao cabo, ser encontrada. Apesar de que alguns analistas não descartam uma intervenção russa, rápida para troca do governo da Ucrânia, por outro que lhe seja favorável.

Não se vê disposição de retaliação pela força no caso de Putin determinar a invasão da Ucrânia, mas nessas questões nunca se sabe exatamente os desdobramentos. As ameaças para contê-lo têm ficado no campo do comércio e das finanças, o que parece não ser determinante para intimidar o moderno czar.

Vivemos hoje os ecos da Guerra Fria. Percebemos que não há em jogo nenhuma ideologia envolvida. Os interesses em disputa são mais estratégicos, ocupação de espaços, como se os dois blocos jogassem partidas de WAR (será que ainda existe esse jogo?).

As repercussões no Brasil desses movimentos político-militares são pequenas. Poucas são as notícias nos principais jornais do país sobre o tema e quando aparecem estão sempre vinculadas à perspectiva da viagem do nosso presidente à Rússia, prevista para a próxima semana.

“Não se meta em briga de cachorro grande, juntam os dois e sobra pra você”, insistia comigo, o avô Elias, ao ver meu afobamento em querer me envolver, no meu arroubo de jovem, em conflitos, existentes no dia a dia do nosso bairro periférico, nos anos 50, em Niterói, como se eu fosse o próprio anjo da paz.

 Nunca vi o velho libanês apressado, tenso, subjugado pelos problemas que certamente tinha, pela demanda da família de 7 filhos. Chegando ao Brasil com 16 anos, construiu família vitoriosa, sem nunca se afastar dos seus prazeres: os amigos do comércio próximo ao seu, as partidas de sinuca no Bar do português Joaquim Pequeno, (tinha o Bar do Joaquim Grande, outro português de maior estatura) onde exibia sua habilidade com o taco. Quando surgia um patrício disposto, com o alaúde cantava em árabe canções da juventude e do folclore da sua terra. Contou-me a razão de sua vinda para o Brasil: afastar-se das guerras frequentes que envolviam seu povo. No relaxamento, o narguilé, no restante do tempo, o cigarrinho de palha, cujas brasas caídas lhe inutilizavam camisas para o desespero de minha avó. Custei a perceber o sentido que meu avô dava a vida!

De uns tempos para cá, ao levantar-me diariamente, renovo alguns compromissos comportamentais que fui aprendendo. Um deles é restringir minhas ações, ao que sei que elas possam ter de efetivas, não gastar energias à toa. Guardar-me para minhas “brigas” e não entrar nas alheias.

Presidente, não vá. Não entre em briga de cachorro grande, você pode sair machucado e nós também!

Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Fev.  2022

O autor é membro da Academia Rotária de Letras do DF. ABROL BRASÍLIA

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