I CAN'T BREATHE

Por Danilo Sili Borges


A expressão “Eu não posso respirar” tem sido ouvida milhões de vezes a partir do momento em que foi pronunciada por um homem negro que estava sendo assassinado, por asfixia, pelo simples motivo de ser negro.
Simultaneamente, em hospitais e lares por todos os quadrantes do planeta, centenas de milhares de seres humanos de todas as raças e condições sociais têm repetido “eu não posso respirar”, asfixiados pelo vírus SARS-CoV-2  que pretende matá-los, pelo simples fato deles serem humanos.
Não estranhe essa afirmação, esse vírus não infecta decisivamente nenhuma outra espécie animal e nem utiliza hospedeiro não humano. Ele se transmite apenas de um humano a outro.
A totalidade da população planetária esconde seus rostos atrás de máscaras na tentativa de se isolar do inimigo mortal e tem sua respiração prejudicada, pois o tecido que filtra o ar dificulta a troca de oxigênio por gás carbônico.
Todos queremos respirar!
Símbolos, para quem gosta de interpretá-los.
Desde a Revolução Industrial do final do século XVIII, a poluição vem sendo o preço a pagar pelo progresso, pelo conforto, pela mobilidade, pela disputa do poder por meio de guerras tecnológicas explícitas ou camufladas. Cientistas e grupos sensíveis ao problema têm alertado para a questão, mais incisivamente a partir do Clube de Roma, quando deu a conhecer seu relatório “Os Limites do Crescimento”, em 1972. Até então, atribuía-se à Natureza a capacidade de absorver e reciclar tudo o que nela se descartasse.
Em final dos anos 70 do século passado, James Lovelock e a bióloga Lyn Margulis propuseram  ao meio científico a hipótese – logo denominada Hipótese de Gaia – que a Terra seria um organismo vivo, um sistema estável, com capacidade de se sustentar pela ação conjunta e integrada dos ecossistemas que a compunham. Dentro  de certos limites, até mesmo a temperatura planetária se autorregularia pela ação dessas atividades biológicas.
Todo sistema estável, mormente os vitais, para manter sua homeostase, procuram corrigir-se, alterando os parâmetros que estejam ameaçando sua estabilidade, assim funcionaria nosso planeta, segundo o entendimento proposto. 
As teorias científicas, muitas delas, surgem a partir de hipóteses oriundas de observações, que se vão comprovando ao longo do tempo. A hipótese de Gaia, hoje já é entendida como Teoria de Gaia, por muitas evidências científicas que a sustentam. A beleza intrínseca às hipóteses da formulação inicial, principalmente sua visão holística, a tornou adotada por místicos de todo o mundo, o que lhe valeu certo afastamento do chamado universo conservador, em boa parte, condutor da política econômica atual que é inconciliável com o mundo possível pela Teoria de Gaia.
A eclosão da COVID-19 tem levado à publicação de grande número de artigos de autoria de cientistas, associando a pandemia a essa teoria. Na minha condição de simples cronista, de registrador de fatos do cotidiano, e procurando juntar às minhas, às suas preocupações, e sem ter elementos para ter ponto de vista firmado sobre a intrigante Teoria, vou lhe dizer, no entanto, o quanto me perturba a ideia de que controlada a pandemia, com vacina e medicamentos, voltemos ao que era antes: aviões cruzando oceanos, queimando toneladas de oxigênio para levar turistas coloridos para fotografar a Torre Eiffel, comer strogonoff em Moscou ou achar estranho o português falado em Lisboa, como se tudo isso fosse grande aventura. E tantas outras futilidades do mesmo gênero.
Se a COVID-19, ao ser controlada, tiver sido apenas uma pedra atirada num lago, um pequeno barulho, algumas ondas que logo se desfazem, vidas que se vão, aos milhares ou milhões, pois afinal, como disse alguém –  “ sinto muito, mas todos vamos morrer, mesmo” –  e logo tudo voltar à crueldade anterior, de nada valeu o sacrifício.
Se acreditarmos, minimamente, na Teoria de Gaia, que o Sistema da Mãe Terra vai continuar a procurar sua estabilidade, sua homeostase, e que nós, Humanidade, somos para ela apenas uma espécie recente, que se descartada, não fará falta em seu caminhar pelo Universo Infinito, talvez mudemos, mesmo que Gaia seja uma grande ilusão. E então, poderemos respirar livremente, negros, brancos, todos os humanos, todas as espécies.
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Jun. 2020
danilosiliborges@gmail.com

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