O GARGALO ENERGÉTICO

 

A próxima conta de energia elétrica nos chegará às mãos com acréscimos de 20% em relação às anteriores, contas que se diga de passagem já têm andado pesando nos orçamentos, tanto dos consumidores residenciais, quanto nos dos institucionais. É a aplicação da tal bandeira vermelha, acionada quando o sistema de geração tem que se socorrer das termoelétricas para atender a demanda. Apesar das negativas oficiais, há risco concreto de racionamento e apagões. Não adiantou nada a gritaria dizendo que “nossa bandeira jamais será vermelha”, a da energia será já agora. Que pare por aí!

Há 20 anos, em 2001, enfrentamos apagões, multas, racionamento de energia e agora vamos chegando à mesma situação. Culpado? Ninguém melhor que São Pedro, que dos céus controla a água sazonal com mais ou menos fartura. O santo tem as costas largas, cabe-lhe também julgar, em primeira instância, o desempenho de cada um enquanto por aqui, e mandá-lo para o compartimento correspondente.

A falta de chuvas deste ano não foi tão severa. O risco hidrológico é conhecido. Os ciclos climáticos são estudados com boa precisão, os projetos de produção de energia e os de abastecimento de água levam-no em conta ao serem elaborados. A dolorosa situação atual não é, ou não deveria ser, emergencial. A solução dada em 2001 foi a mobilização de usinas termoelétricas a derivados de petróleo para suprirem o que fosse possível na cobertura da demanda. Isso naquele tempo.

Tudo que não se pode alegar é surpresa. Tivemos 20 anos para equacionar e resolver este problema básico de infraestrutura. Altíssimos impostos são cobrados nas contas e deveriam ter sido investidos com essa finalidade. Não o foram na medida necessária como já não o tinham sido em anos anteriores ao de 2001. Entre as decisões e os quilowatts gerados, são necessários dezenas de meses, recursos e muita engenharia. Estádios de futebol, copas do mundo e olimpíadas dão retornos políticos em tempos muito mais curtos. E reelegem.

Quando se fala em geração limpa de energia, enchemos a boca e dizemos, o Brasil tem a matriz energética mais limpa do planeta, o que é verdade por ser a nossa geração na sua maior parte hidroelétrica. Duas questões devem ser observadas. Uma. que esse potencial é finito, e, outra que aspectos ambientais, há muito tempo, interferem, condicionando para que as modernas hidroelétricas sejam do tipo “a fio d’água”, que dispensam reservatórios de grande extensão, não exploram todo o potencial energético da bacia hidrográfica e geram pouca energia quando essa é mais necessária, na estação seca. A grande usina de Belo Monte é desse tipo.

Esta semana o presidente Bolsonaro manifestou-se publicamente pela aprovação da Medida Provisória da privatização da Eletrobrás, “sem a qual imperará o caos no setor energético do país”. No bolso do consumidor o caos já estará instalado com a próxima conta. Interesses políticos paroquiais e ideológicos polarizam a questão e a MP corre o risco de não ser votada.

A moda global é citar que está findando o ciclo da geração energética pela queima dos derivados do petróleo e do carvão. A garota propaganda da era que se avizinha é o carro elétrico, limpo, silencioso, a menina dos olhos dos ambientalistas. Esquecem-se que a eletricidade que chega aos postos de recarga desses veículos continua sendo gerada, nos países, onde os carrinhos já circulam em grande número, por queima de óleo, carvão ou pelas termonucleares.

Fontes alternativas menos poluentes têm sido criadas e aprimoradas ao longo de décadas: solar, eólica, marés, biomassa, com diferentes comprometimentos ambientais e econômicos. Os diversos países em reuniões sobre o clima comprometem-se a reduzir a emissão de carbono, sabidamente a grande ameaça para o clima do planeta, com metas arrojadas.

A verdade é que não há modo ambientalmente inocente de produzir energia, uns mais, outros menos, sempre haverá custo ambiental a pagar.

A pergunta que um cronista não especialista neste tema formula é: as tecnologias alternativas hoje conhecidas serão capazes de suportar a demanda global? Equipamentos cada vez menos gastadores de energia vão sendo desenvolvidos, mas atendimento de melhor nível de vida para populações hoje excluídas da modernidade é inevitável e isso ampliará a demanda energética.

Einstein e sua Teoria da Relatividade correlacionaram duas grandezas físicas, até então tratadas como independentes, massa (matéria) e energia numa única equação (E=m c²) que mostrava a possibilidade de uma se transformar na outra. Mudou a Física, o entendimento do Universo e a hipótese do seu começo, a partir da grande explosão de formidável concentração de energia, o Big Bang. Só não explicou quem criou a energia que explodiu. Essa discussão, do começo, é, na realidade, sem fim!

A ciência e a tecnologia conseguiram disponibilizar pequena parte da massa de determinados elementos químicos pesados e transformá-la em energia pelo método de fissão nuclear. Impiedosos, os humanos primeiro o usaram nas bombas atômicas, em seguida nos reatores das centrais nucleares, nesse processo, recuperando apenas parte da imensa quantidade da energia existente na matéria. As estrelas, como o Sol, produzem sua energia pela fusão de átomos, processo que ainda não dominamos.

Ao se comprometerem com o banimento da queima dos derivados do petróleo, com data marcada, estariam os chefes dos estados mais desenvolvidos tecnologicamente deixando a dica de que já estão em vias de produzir a energia das estrelas? Provavelmente limpa e inesgotável!

Apenas um sonho, em madrugada de época sem chuvas!

 

Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Jun. 2021

danilosiliborges@gmail.com


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