LIBERDADE DE IMPRENSA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO

 



Terça-feira, 7, comemorou-se o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, instituído em 1977, quando cerca de 3 mil jornalistas assinaram um manifesto contra a censura imposta aos meios de comunicação pelo regime de 1964. Ainda hoje as restrições ao exercício profissional do jornalismo, avaliadas comparativamente com outros países pela organização Repórteres Sem Fronteiras não nos mostram em bom posicionamento.  

A Constituição Federal regula de modo amplo a liberdade de expressão, não apenas para atividades jornalísticas, mas também para os cidadãos.

Os avanços tecnológicos e particularmente a Internet democratizaram a informação. A partir de um smartfone podemos receber e enviar notícias, análises, relatórios e até mesmo ilações e boatos produzidos tanto pela mídia formal, quanto pelos que resolvem se manifestar sobre quaisquer assuntos. Os limites para uns e outros são os da lei, artigo 5º da CF e outras.

Criou-se uma grande confusão de ruídos e de notícias falsas, as fake News, é verdade, mas houve também um ganho. Antes, com as informações concentradas em alguns órgãos da imprensa, complexos de jornais, TVs, rádios e revistas a manipulação da opinião pública se dava mais facilmente. Com um número grande de analistas, a maioria de não-profissionais jornalistas, das mais diferentes áreas do conhecimento, as verdades têm mais probabilidade de surgirem por entre as fake News, as quais logo que são criadas podem ser (e são) contestadas. E o sol da realidade dos fatos brilha entre as nuvens escuras das mentiras profissionais e amadoras.

Estabeleceu-se um desequilíbrio do status anterior. Os meios de comunicação tradicional perderam vendas e importância, jornalistas que eram oráculos são cotidianamente contestados, políticos são flagrados. São não-jornalistas que de Lisboa, a Viena, de Leblon ao ABC paulista descobrem reuniãozinhas secretas para um acordo espúrio, é um celular que registra e divulga a indignação de um ministro empertigado quando, num avião de carreira, é cobrado por suas incoerências “jurídicas”.

A reação é forte: Quem escreve e se expõe a críticas é taxado de imbecil por uma autoridade que ocupa alto cargo, não por uma análise pontual sobre este ou aquele artigo, mas porque opiniões que não podem ser controladas incomodam e amedrontam. Afinal, não dá para prender todo mundo.

Recebi esta semana, um antigo artigo da jornalista Eliane Brum, que pretendia ser influenciadora da opinião pública, e que “sentava o pau” em quem se arrisca a dar seu recado pelas redes sociais. Vai um trecho do que me chegou:

“Desde que as redes sociais abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente, digamos, o seu “eu mais profundo”, a sua “verdade mais intrínseca”, descobrimos a extensão da cloaca humana. Quebrou-se ali um pilar fundamental da convivência, um que Nelson Rodrigues alertava em uma de suas frases mais agudas: “Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava”. O que se passou foi que descobrimos não apenas o que cada um faz entre quatro paredes, mas também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um de fato pensa sem nenhuma mediação ou freio. E descobrimos que a barbárie íntima e cotidiana sempre esteve lá, aqui, para além do que poderíamos supor, em dimensões da realidade que só a ficção tinha dado conta até então.

Descobrimos, por exemplo, que aquele vizinho simpático com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador defende o linchamento de homossexuais. E que mesmo os mais comedidos são capazes de exercer sua crueldade e travesti-la de liberdade de expressão. Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância. Com frequência reivindicam uma condição de “cidadãos de bem” como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer diferença”. 

Melhor assim, que cada um se exponha como realmente é. Parece-me que a autora pretendia por freios entre as orelhas dos que se arriscam a se expressar pela mídia eletrônica informal, talvez que lhes cortem os dedos para que não digitem. Está claro no texto que ela teme que cada um possa se expressar livremente, que exponha o seu eu mais profundo e que teme ter que se deparar com a cloaca humana (temor estranho num profissional do jornalismo, realistas e investigativos).

Tudo tão próximo à opinião de Alexandre, o Imenso, a quem certamente ela inspirou no seu recente pronunciamento sobre as postagens na internet.

A citação a Nelson Rodrigues parece-me fora do contexto para qualquer um que conheça razoavelmente sua obra. Pura apelação.

Um dos candidatos a presidente da república pregou até recentemente (e se calou por conveniência de campanha) o controle da mídia, na realidade o controle da internet, pois essa não pode ser “orientada”, pelos meios habituais de convivência entre os governos e a imprensa.

A liberdade da Humanidade passa pela comunicação livre e direta entre todos. Ela estará sempre ameaçada pelos autocratas. Com erros, acertos, exageros, omissões, vaidades, no conjunto, chegaremos à Opinião Pública, - a voz do povo – quando apurada sem donos, esta sim é a versão mais próxima da “Voz de Deus”.

Os que esperneiam o fazem por ressentimento, dor de cotovelo e incompetência.

Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Jun.2022

danilosiliborges@gmail.com

O autor é membro da Academia Rotária de Letras do DF. ABROL BRASÍLIA

 

 

 


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